Economia
Esforço monetário

Campos Neto diz que taxa de juro real no Brasil é mais alta

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, criticou comparações feitas entre as taxas de juros do Brasil e de outros Países

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27 de abril de 2024
Vinicius Palermo
Campos Neto diz que taxa de juro real no Brasil é mais alta
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, participa da abertura do G20 TechSprint, na sede do BC. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avaliou que a taxa de juro real no Brasil é mais alta, e que isso é uma realidade histórica, mas que ela vem diminuindo. Ele criticou comparações feitas entre as taxas de juros do Brasil e de outros Países, como o Chile, dizendo que é preciso comparar o esforço monetário, não só as taxas de juros, porque o juro real pode levar a conclusões enganosas.

“Essa narrativa de que os juros estão absurdamente altos não é verdade. Quando a gente olha o histórico dos juros e o esforço monetário, vemos que isso não é real”, disse Campos Neto, durante palestra no evento “Cenário e Perspectivas para o Brasil”, promovido pelo Young Presidents Organization (YPO).
Ele ainda destacou que o Brasil precisa avançar com as reformas e não retroceder de forma nenhuma das que foram feitas.

O presidente do Banco Centra comentou sobre a inflação global durante a palestra. “A grande pergunta que a gente se faz é de onde virá a desinflação daqui para frente”, afirmou durante a apresentação.

Ele comentou sobre núcleos de inflação e disse que a inflação de serviços não está caindo mais. Também observou que, historicamente, não há desinflação em período de pleno emprego por tempo longo.
“Os Estados Unidos hoje concentram toda a atenção. Temos números importantes para acompanhar, e lá a inflação caiu e depois voltou a subir”, disse Campos Neto.

Ele ainda analisou que o cenário dos Estados Unidos, com incerteza, mudou a precificação do mercado. Como a curva norte-americana não mostra mais queda de juros, há efeitos em todo o mundo. Como exemplo, ele citou a diminuição da expectativa de corte de juros na Europa e em países emergentes, como o Brasil e México.

Um dado apresentado por Campos Neto era de expectativas do mercado para a política monetária, que estão menos otimistas para o corte de juros. “Estou falando mais do externo do que o normal porque é mais importante para nós agora. Se os juros nos Estados Unidos ficarem mais altos por mais tempo, significa que vai custar mais caro rolar a dívida por mais tempo”, disse.

Ele afirmou que os dados da economia norte-americana melhoraram, mas disse que, se o país tiver de aumentar os juros, ficaria em uma situação complicada e que traz implicações para a política fiscal.
“Se tenho juros mais altos por mais tempo, vou gastar mais e a dívida americana subiu muito. A situação confortável para o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) não significa que seja mais confortável para o resto do mundo”, disse o presidente do BC do Brasil.

Mais cedo, Campos Neto relembrou que, no período da pandemia, houve um movimento de organização das políticas monetária e fiscal para o enfrentamento da crise sanitária. Foi feito um plano muito ambicioso – em termos de gastos fiscais, gastou-se três vezes mais do que em 2008, mas depois vieram as cicatrizes, entre elas a inflação. A isso somou-se a guerra da Ucrânia, que pressionou os preços de energia.

O presidente do Banco Central disse, referindo-se ao cenário de juros dos Estados Unidos, que é difícil precisar a tendência para o dólar nos próximos meses. “Não existe relação mecânica entre moeda e diferencial de juros. Mas com os juros mais fortes nos EUA por mais tempo, a tendência é de que o dólar fique mais forte”, disse.

Campos Neto reforçou que o cenário dos Estados Unidos não tem uma relação mecânica com o Brasil, mas que é preciso avaliar como isso vai ter impacto no País.

Ele citou como exemplo como o real poderá trabalhar mais desvalorizado e o custo de crédito por causa dos juros norte-americanos mais elevados. É o derramamento do juro alto nos Estados Unidos que atrai a atenção, segundo o presidente do BC. “O que a gente pode falar é que a incerteza aumentou”, disse Campos Neto.

Ele voltou a mencionar a convergência da inflação e o mercado de trabalho aquecido nos Estados Unidos e também o cenário geopolítico, com os conflitos envolvendo Israel e Ucrânia afetando os preços de energia. Todo esse cenário tornará o trabalho dos Bancos Centrais em todo o mundo mais difícil daqui em diante, segundo ele.

Questionado sobre a possibilidade de uma nova moeda global, ele disse que gasta-se muito tempo para discutir a viabilidade de uma nova dominância quando a tecnologia já superou isso e permite operações com conversões cambiais instantâneas e eficientes.

“Acredito mais que a tecnologia vai superar esse debate de zonas de comércio, digamos assim. Estamos tecnologicamente muito perto de integrar sistemas”, comentou o presidente do BC.