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Sustentabilidade fiscal

Cenário global ainda tem riscos que podem levar à reprecificação de ativos

O colegiado enfatizou que a alta volatilidade e o nível elevado das taxas de juros de longo prazo nas economias centrais, em especial nos Estados Unidos

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29 de fevereiro de 2024
Vinicius Palermo
Cenário global ainda tem riscos que podem levar à reprecificação de ativos
O BC lembra que a quebra de bancos regionais nos EUA e as dificuldades de grandes bancos europeus no começo do ano passado mostraram que há vulnerabilidades acumuladas que podem escalar para a materialização de crise financeira sistêmica.

O Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) do Banco Central voltou a dar destaque para os riscos do cenário global na ata do seu 56º encontro, que manteve o Adicional Contracíclico de Capital Principal relativo ao Brasil (ACCPBrasil) em 0%. O colegiado enfatizou que a alta volatilidade e o nível elevado das taxas de juros de longo prazo nas economias centrais, em especial nos Estados Unidos, e incertezas em torno do crescimento na China, têm impactado as condições financeiras internacionais.

“O cenário global prospectivo ainda apresenta riscos que podem levar à materialização de cenários de reprecificação de ativos financeiros globais. Incertezas acerca da extensão do período de juros elevados e dos níveis de equilíbrio das taxas de juros no longo prazo, preocupações quanto à sustentabilidade fiscal, e suscetibilidade dos mercados a eventuais disrupções de oferta resultantes de conflitos geopolíticos são alguns dos fatores que contribuem para a manutenção de riscos para os preços de ativos em patamar elevado”, apontou o documento.

O BC lembra que a quebra de bancos regionais nos EUA e as dificuldades de grandes bancos europeus no começo do ano passado mostraram que há vulnerabilidades acumuladas que podem escalar para a materialização de crise financeira sistêmica. Por outro lado, a ata destaca que as economias emergentes têm mostrado resiliência diante do cenário externo adverso, ainda que fatores de vulnerabilidade permaneçam.

“O sistema financeiro internacional tem se mostrado resiliente, adaptando-se à dissipação dos choques recentes e à trajetória de desinflação em curso, embora ainda haja sinais de vulnerabilidades localizadas”, considera a ata.

O BC detalha que continua a observar nos EUA a contração do crédito em alguns segmentos – em especial nos mais sensíveis a taxas de juros – e o aumento de provisões. Além disso, a elevada exposição de bancos menores ao setor imobiliário corporativo, que continua sob estresse, segue sendo ponto de atenção. “Não obstante o alívio desde o Comef anterior, as condições financeiras mantêm-se restritivas”, alerta o texto.

A ata cita a volatilidade dos juros americanos de longo prazo, e incertezas sobre a política monetária de países centrais, a trajetória de crescimento da China e os impactos de eventos geopolíticos – como as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. “Neste contexto, a eficiente gestão de riscos, de capital e de custos de captação segue bem mais importante e desigualmente mais desafiadora para alguns intermediários menores ou especializados em segmentos mais impactados”, avalia o BC.

Ao mesmo tempo, o Comef assegura que as autoridades têm atuado para manter a confiança nos sistemas financeiros. A ata cita as propostas de medidas nos EUA para endereçar riscos de estabilidade financeira e fortalecer o capital do sistema bancário, enquanto na China há medidas para conter efeitos sistêmicos da crise no setor imobiliário e fortalecer a supervisão financeira e a prevenção e resolução dos riscos financeiros.

“O Comef avalia que a exposição do Sistema Financeiro Nacional ao risco da taxa de câmbio é baixa e a dependência de funding externo é pequena. A transparência, previsibilidade e credibilidade na condução das políticas monetária, fiscal e macroprudencial são essenciais para mitigar os riscos sistêmicos”, completa a ata.

Mais uma vez, o Comitê garante que está atento à evolução dos cenários doméstico e internacional e segue preparado para atuar, de forma a minimizar eventual contaminação desproporcional sobre os preços dos ativos locais. “O Comitê segue entendendo que políticas macroeconômicas que aumentem a previsibilidade fiscal, que reduzam os prêmios de risco e a volatilidade dos ativos contribuem para a estabilidade financeira e, consequentemente, melhoram a capacidade de pagamento dos agentes”, acrescenta o documento.

O Comef do Banco Central destacou a continuidade da desaceleração do financiamento à economia real. O colegiado alertou que o ambiente de crédito continua demandando atenção.

“Nas principais modalidades de crédito às pessoas físicas manteve-se a tendência de desaceleração ou passou-se a observar estabilidade no crescimento, à exceção da carteira de financiamento de veículos, que mostra aceleração. Para as pessoas jurídicas, continuou a desaceleração do crédito bancário O mercado doméstico de dívida corporativa continua ganhando representatividade como fonte relevante de financiamento, principalmente para as grandes empresas”, destacou o BC.

De acordo com o documento, o apetite ao risco dos bancos no crédito às famílias e às empresas, que vinha se reduzindo, passou a apresentar sinais de estabilidade. Para pessoas físicas, a ata destaca a estabilização das concessões em algumas modalidades mais arriscadas, como cartão de crédito e crédito não-consignado. “Os critérios de concessão foram mantidos, após período de melhora na qualidade”, completa o Comef. O BC chama atenção ainda para os níveis historicamente elevados do endividamento e do comprometimento de renda das famílias, embora a tendência seja de redução.

Já no crédito para pessoas jurídicas, o Comef avalia que o ritmo de crescimento do crédito também segue desacelerando, mas sem alteração relevante nos critérios de concessão. “Os resultados de pesquisas junto às instituições financeiras apontam melhores condições de oferta e demanda de crédito, tendo como um dos fatores a percepção de maior apetite ao risco em algumas linhas. O Comef avalia que é importante os intermediários financeiros continuarem preservando a qualidade das concessões”, orienta a ata.

Após a entrada em vigor do teto de 100% de juros e encargos para a dívida do cartão de crédito no começo do ano, o colegiado reforçou que os instituidores dos arranjos de pagamento devem assegurar que seus mecanismos de governança e de gerenciamento de risco sejam implementados de forma adequada e efetiva.

“O Comitê vem acompanhando regularmente a evolução da indústria de cartões de crédito em seus diversos recortes, considerando, dentre outros aspectos, o estoque das carteiras, a concessão e a utilização de limites, e a materialização de risco vis-à-vis os perfis dos usuários e dos emissores. Tendo em vista a relevância dos arranjos de pagamento para a economia, o Comef entende que os seus participantes – instituidores, emissores, credenciadores e subcredenciadores – devem dispor de mecanismos de governança e de gestão de riscos aptos a preservar a estabilidade e o funcionamento seguro e eficiente desses arranjos”, completa o documento.