COP 26, uma avaliação

Por: Por Marina Silva

Foto: Divulgação

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"É provável que a COP 27, no Egito, retome e avance em resultados. Até lá, esperamos que a natureza não faça demonstrações trágicas do quanto já desorganizamos o suporte ecológico da vida no planeta."

"É provável que a COP 27, no Egito, retome e avance em resultados. Até lá, esperamos que a natureza não faça demonstrações trágicas do quanto já desorganizamos o suporte ecológico da vida no planeta."

* Por Marina Silva

A Conferência de Clima da ONU, ocorrida em Glasgow, colocou diante da humanidade uma situação dramática. Talvez tenha sido a última oportunidade de discutir o colapso climático do planeta sem estarmos sob intenso sofrimento em consequência desse colapso.

Os participantes dessa Conferência tiveram condições especiais para fazer os debates e tomar decisões. Se por um lado começamos a vivenciar eventos climáticos extremos, por outro, também temos o maior acúmulo de conhecimentos técnicos e científicos disponíveis para os tomadores de decisão. Vimos, é fato, ocorrer situações como ondas de calor e incêndios, como no oeste dos EUA, em países do Oriente Médio e na Grécia, ou tempestades, furacões e inundações na China, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Suíça. 

Porém também é fato que os cientistas produziram relatórios sobre o derretimento do gelo na região do Ártico, elevação do nível do mar, alteração de correntes marítimas que contribuem com a regulagem do clima ao norte da Europa. E para enfrentar essas situações ao redor do planeta, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC da ONU, que envolve mais de 2 mil cientistas, ofereceu relatório muito robusto sobre todas as questões que envolvem o clima terrestre que permite que haja vida em nosso planeta. 

Outros órgãos da ONU, como a Organização Mundial de Saúde – OMS, que trouxe informações sobre a relação da saúde e o clima e a Organização Meteorológica Mundial, que faz medições sistemáticas do aquecimento global. Órgãos acadêmicos disponibilizaram dados estatísticos sobre as atividades econômicas mais relevantes da humanidade. Do ponto de vista do apoio político ao tema, nesta COP tivemos uma significativa participação da sociedade. Do Brasil foram organizações ambientalistas, uma grande delegação do povo negro e também de povos indígenas, com uma destacada atuação da jovem ativista indígena Txai Suruí.

Assim, tivemos a ocasião, os dados, o suporte político, as comprovações das previsões acontecendo na prática, as formulações científicas e os acúmulos diplomáticos para basear as decisões com inteligência estratégica e o senso de urgência que a situação coloca.

Os resultados da COP foram importantes, sem dúvida. Os acordos sobre proteção de florestas e para redução da emissão de metano, um dos gases do efeito estufa e o compromisso de apoiar os povos indígenas com mais recursos, pois são responsáveis por territórios em que estão 80% da biodiversidade do planeta, são resultados relevantes. Mas, também sem dúvida, insuficientes.

Os países ricos, que são responsáveis por grande parte dos gases acumulados em nossa atmosfera, não chegaram a uma definição satisfatória do Fundo de financiamento climático para que os países em desenvolvimento, de renda baixa e renda média-baixa, possam se adaptar às mudanças climáticas, mitigar danos já existentes e, mais que tudo, adotar novas e modernas tecnologias para fazer suas economias transitarem para um modelo descarbonizado.

Enquanto as empresas de energia fóssil, carvão, petróleo e gás receberam US$ 3,8 trilhões em financiamento, entre 2015 e 2020, conforme relatório da Rainforest Action Network (RAN), os países em desenvolvimento não conseguiram até hoje receber os US$ 100 bilhões anuais, no mesmo período e a COP 26 não garantiu a totalização desse compromisso daqui para a frente. Ou seja, as forças de extinção da vida recebem 7 vezes mais suporte financeiro do que as de defesa da vida.

É provável que a COP 27, no Egito, retome e avance em resultados. Até lá, esperamos que a natureza não faça demonstrações trágicas do quanto já desorganizamos o suporte ecológico da vida no planeta. Mas parece que os atuais líderes de todo o mundo ainda não aprenderam a lição e, enquanto isso, a sociedade sofre, perde entes queridos e patrimônio de toda uma vida de trabalho. No caso dos 48 países que estão com seus territórios desaparecendo sob as águas, perdem também sua cultura, identidade e o chão em que nasceram.


Marina Silva, ambientalista, foi senadora e ministra do Meio Ambiente.

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