Diário Comercial

Destaques do Dia


Economia


Tesouro Direto volta a suspender negociação devido à turbulência

O Tesouro Direto voltou a suspender as negociações por conta da volatilidade nas taxas dos juros dos títulos públicos ontem. A suspensão começou às 12h50 e deveria durar até por volta das 14h15, de acordo com comunicado da instituição. A suspensão das negociações no Tesouro Direto tem ocorrido quase que diariamente nas últimas semanas, por conta do estresse no mercado de juros. Em alguns dias, como no último dia 14, houve três suspensões na mesma sessão, em outros, como dia 26 de maio, foram duas paralisações. Nos últimos 32 dias, o Tesouro Direto teve emoção digna de Bolsa de Valores. As turbulências, tanto no cenário externo como no interno, mexeram com os preços dos títulos a ponto de o Tesouro interromper as negociações da plataforma quase que diariamente. Nesse período, foram nada menos que 31 suspensões - preocupando investidores que precisavam resgatar recursos ou que simplesmente viam seus títulos se desvalorizarem. As suspensões por volatilidade - o Tesouro pode interromper as negociações por outros motivos, como manutenção técnica - tiveram início no dia 17 de maio, depois de o Banco Central surpreender o mercado com a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 6,5% ao ano. Logo depois veio a greve dos caminhoneiros, somada às tensões no mercado externo - que levaram à disparada do dólar. Esse "pacote" piorou a percepção de risco do país e derrubou o preço dos títulos públicos prefixados e dos indexados à inflação. Diante da oscilação, o Tesouro Direto congela: suspende temporariamente as negociações. Em maio e junho, essas "travas" foram recorrentes. Para efeito comparativo, em todo o ano de 2017, só houve interrupção de compra e venda de títulos por volatilidade em seis dias - sendo um deles no dia seguinte à divulgação da gravação de Joesley Batista, da JBS, dia em que o Tesouro nem abriu. "As pessoas podem até ficar preocupadas, mas a suspensão é uma medida positiva para ajustar o preço e as taxas dos títulos. Ou seja: para que quem compre e venda o faça a um preço justo de mercado", explicou Fábio Macedo, gerente comercial da corretora Easynvest. Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper, destacou também uma questão técnica. "Os preços do Tesouro Direto são atualizados só três vezes ao dia - às 9h30, 12h e 15h30 - , e não instantaneamente, conforme a oferta e demanda", disse. "A suspensão é para evitar que ele compre caro demais, por exemplo." A preocupação do investidor com as suspensões recai principalmente sobre a liquidez diária, ou seja, a capacidade de transformar o investimento em dinheiro no bolso rapidamente - que é um dos principais chamarizes do Tesouro Direto. "Independentemente de haver suspensão, após o fechamento do mercado, às 18 horas, o investidor sempre pode comprar ou resgatar", explicou Sergio Gesteira, gerente da mesa de operações do Tesouro Nacional. "A diferença é que a liquidação será feita no D+1, ou seja, no preço do dia seguinte." Isso significa que a operação fica sujeita aos preços e taxas da abertura do mercado no dia seguinte. Macedo, da Easynvest, lembra que o investidor também pode agendar as aplicações - embora também fique sujeito ao preço de abertura. Gesteira, do Tesouro, destaca que, além dos fatos pontuais do último mês, a oscilação mais expressiva é característica de ano eleitoral. "Uma das principais razões para volatilidade em qualquer mercado são incertezas. E este ano, de eleição, ninguém sabe quem vai ser o próximo governo", diz. Com a turbulência que faz o dólar disparar e a Bolsa cair chegando aos preços dos títulos públicos, o investidor muitas vezes se assusta. O Tesouro Prefixado 2025, por exemplo, teve desvalorização de 9,43% nos últimos 30 dias. Já o IPCA+ 2045 recuou 11,39% no período. Esse tombo ocorre por causa da chamada marcação a mercado, que é a atualização, normalmente diária, do preço de um ativo de renda fixa ou da cota de um fundo de investimento. Esse mecanismo permite que o investidor saiba quanto receberia hoje se vendesse aquele título ou aquela cota - ou seja, com base na oferta e demanda por aquele papel, quanto o mercado está disposto a pagar por ele. Os títulos prefixados e os atrelados à inflação são os que sofrem marcação a mercado, sobretudo os de prazo mais longo. Já os títulos pós-fixados não, pois seguem a Selic diariamente. No último mês, com a piora das expectativas, o preço dos papéis caiu - na contrapartida, para quem fosse comprar, pagavam uma taxa maior. Nesses casos, aconselham especialistas, o investidor deve evitar resgatar o papel, pois irá perder dinheiro. "Vale lembrar, porém, que o título se desvalorizar não significa que o investidor vai ter prejuízo - só se ele vender o título", explica Macedo, da Easynvest. Se o preço cair e o investidor seguir até o final do vencimento, não sofrerá com a oscilação e terá exata rentabilidade acertada no momento da compra.


Governo não tem recursos suficientes para financiar precatórios

O ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Esteves Colnago, disse ontem que o governo federal não tem dotação orçamentária para oferecer empréstimo subsidiado para estados e municípios pagarem os precatórios devidos. A medida está prevista na emenda constitucional 99, promulgada em dezembro do ano passado, que adiou de 2020 para 2024 o prazo para os entes quitarem essas dívidas dentro de um regime especial. De acordo com a emenda, em até seis meses, a União, diretamente, ou por intermédio das instituições financeiras oficiais, deve disponibilizar uma linha de crédito especial para pagamento dos precatórios. Os precatórios são as dívidas contraídas pelos governos em todas as esferas, quando são condenados em instância final pela Justiça, a pagar a pessoas físicas ou jurídicas. Segundo Colnago, o governo não conseguiu retirar o dispositivo da proposta e agora, para cumprir essa obrigação, será preciso abrir espaço no orçamento. “Alguma coisa terei que deixar de fazer”, diz. “Vamos ter essa discussão dentro do Executivo, para ver como atender e se vamos atender”, disse, explicando que a própria Constituição diz que é preciso ter dotação orçamentária para cumprir as obrigações, assim a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei de Diretrizes Orçamentárias pedem essa compatibilidade orçamentária. “Preciso, dentro do arcabouço jurídico, estar atendendo a todas a leis, e a própria Constituição”. Para o ministro, mesmo para o orçamento do ano que vem, para que o financiamento seja oferecido aos entes, outras despesas deverão ser reduzidas. “É uma discussão que veremos ao longo do tempo e no envio da Lei Orçamentária Anual”, explicou. De acordo com o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, o que o governo pode fazer até 30 de junho é regulamentar a lei, já que não existe previsão no orçamento. “Também não foi feita a estimativa de impacto econômico e financeiro. Mas o impacto não será nesse ano, nem no próximo”, disse. Almeida explicou que, antes de acessar a linhas de crédito da União, os estados e municípios têm prazos e precisam recorrer aos recursos próprios e outros mecanismos para pagar os precatórios. Segundo levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), até junho de 2014, a dívida total da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios com precatórios era de R$ 97,3 bilhões. A maior dívida é dos estados e alcança R$ 52,7 bilhões nos tribunais federais, estaduais e trabalhistas. A dívida dos municípios é de R$ 43,7 bilhões e a da União, de R$ 935 milhões. Colnago e Mansuetto participaram ontem, em Brasília, do seminário “Cenários Fiscais e Prioridades Orçamentárias”, promovido pela Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal. O ministro do Planejamento defendeu o teto dos gastos públicos e as reformas estruturantes para dar sustentabilidade às contas públicas. Segundo Colnago, a projeção é de mais três anos de déficit fiscal. “Precisamos atacar o problema de sustentabilidade das contas públicas. Podemos discutir o teto dos gastos, mas tem que vir outra coisa que dê essa sustentabilidade”, disse. Para Colnago, as reformas mais importantes a serem feitas envolvem os gastos previdenciários, as despesas e engessamento do funcionalismo e a revisão de programas sociais. “Há uma crença do mercado de que o próximo governo vai adotar essas medidas”, explicou. De acordo com o ministro, sem as reformas haverá um enrijecimento do orçamento, chegando a 2021 com 98% das dotações do governo para despesas obrigatórias. “É importante que se adote medidas para a folha de pagamento não tomar todo o orçamento das cidades, dos estados e da União. Algumas prefeituras estão convergindo para serem administradoras de folha de pagamento, isso é frustrante. Há um conjunto de políticas públicas que precisam ser tocadas”, disse Colnago. “Não vejo solução para o próximo governo que não seja enfrentar as reformas”.


Indústria suspende investimentos com greve dos caminhineiros

A constatação de que a economia deve crescer menos do que o esperado fez os empresários da indústria cortarem investimentos previstos para este ano. A greve dos caminhoneiros, que tirou quase 15 dias de faturamento das empresas, ampliou as incertezas no mercado interno, que já embutiam o risco eleitoral. As pressões externas, que culminaram com a alta do dólar, também aumentaram as preocupações do setor. Duas pesquisas revelam que, nas últimas semanas, os empresários ficaram receosos em prosseguir com investimentos que levassem a aumento de produção, diante de uma ociosidade entre 25% e 30% nas fábricas. Na semana passada, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) cortou a projeção de investimento do setor para este ano. Em março, a expectativa, baseada na consulta a 442 empresas, era de que seria investido 1,2% mais do que em 2017. Agora, a estimativa é de queda de 0,4% ou R$ 503 milhões a menos. Com isso, o aporte total deve ser de R$ 117,3 bilhões. "O grande problema foi a redução da projeção do PIB e a greve", afirmou o presidente em exercício da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. Outra pesquisa mostra que os empresários da indústria começaram a segurar os investimentos antes mesmo da greve. O Indicador de Intenção de Investimentos da Indústria do segundo trimestre, apurado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV com cerca de 700 empresas em abril e maio, caiu 7,6 pontos em relação ao primeiro trimestre. O resultado é quase o mesmo do fim de 2017 e está abaixo da média registrada antes da recessão de 2014. "É um sinal preocupante porque 95% das indústrias foram consultadas antes da greve, que adicionou mais incertezas", disse o superintendente de Estatísticas Públicas da FGV/Ibre, Aloisio Campelo Jr.. Se a apuração tivesse ocorrido na época da greve, ele acredita que o resultado seria pior. A retração de aportes da indústria afeta o investimento total da economia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta para este ano aumento de 4,5% da Formação Bruta de Capital Fixo, que mede o investimento. Seria o primeiro avanço desde 2013. Segundo o diretor do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diante das incertezas, a alta deverá ser menor. "Os efeitos de se investir menos são perda de renda e de crescimento do PIB e a redução na capacidade de produção", disse Souza Júnior. Além disso, acrescentou Roriz Coelho, sem investimento em modernização, a produtividade cai e o país fica ainda mais distante de competidores globais. Para o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Rafael Cagnin, investimento em pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, deveria ser contínuo, e interrompê-lo significa que talvez não possa ser resgatado. Segundo ele, grandes investimentos estão fora do radar e a retomada só deve ocorrer após a eleição. Na virada do ano, o empresário Fernando Antonio Gomes Martins, dono de uma fábrica de parafusos, esperava investir R$ 6 milhões no negócio em 2018. Ele já imaginava as dificuldades de um ano eleitoral, mas não previa tanta indefinição. "A greve dos caminhoneiros foi só a gota d'água, uma gotinha no maremoto que pode vir por aí", disse. Com a realidade se mostrando bem diferente do que as previsões, ele decidiu cortar R$ 2 milhões e antecipar as férias coletivas dos funcionários para adequar a produção à demanda menor. A Continental Parafusos é uma indústria de médio porte que fornece para montadoras e fabricantes de eletrodomésticos. "Para alguns segmentos, a venda recuou 10% e não sei se vamos conseguir tirar a diferença", disse. Da previsão inicial de R$ 6 milhões, metade seria investida em máquinas e equipamentos para aumentar a capacidade e o restante em gestão e inovação. Agora, o aporte será de R$ 4 milhões. Os R$ 2 milhões que seriam para aumento da capacidade vão ser adiados. "Ficamos com investimentos em produtividade, eficiência energética e gestão." Após ter perdido duas semanas de vendas com a greve, a empresa tem hoje uma ociosidade de 40%, o dobro em relação ao final de 2017. "O grande problema é a taxa de crescimento da economia, que não aumenta." O problema enfrentado por Martins afeta a indústria em geral. "Como as empresas vão faturar menos e a ociosidade é maior, elas vão tirar o pé dos investimentos", disse o presidente em exercício da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. No setor têxtil, por exemplo, a última sondagem, feita em abril e maio, mostrava que 80% das empresas tinham intenção de investir mais ou o equivalente ao ano passado, ou seja, de 4% a 5% do faturamento, disse Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. "Mas o humor piorou com a greve, o solavanco cambial e o risco de o país crescer menos". No setor de calçados, que opera com 70% de sua capacidade instalada e emprega 288 mil pessoas, a maior parte dos investimentos contemplados são de reposição de equipamentos. "Investimentos em expansão e inovação na manufatura são casos isolados", disse o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Heitor Klein. "O investimento na indústria química está muito abaixo do necessário", afirmou Fernando Figueiredo, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química. Serão R$ 2,6 bilhões ante R$ 3,8 bilhões em 2017. Na média, as cerca de 3 mil empresas usam 74% da capacidade. A última pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), entre abril e maio, mostrava que 81% das empresas tinham intenção de investir neste ano, ante 67% em 2017 e 64% no ano anterior. Flávio Castelo Branco, gerente executivo de Políticas Econômicas, não sabe se o indicador será mantido na próxima consulta. "O cenário mudou; os juros americanos aumentaram e isso bate no nosso câmbio", disse. "Ainda tivemos a greve, que mostrou um ambiente político fraco para negociações e uma insegurança jurídica forte - ambiente que não favorece investimentos." Para João Marchesan, da Abimaq, a falta de projetos terá reflexos no futuro. "O investimento de hoje é o crescimento de amanhã".




©2017 - Diário Comercial. Todos os direitos reservados.