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Suellen Escariz

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Paixões políticas

O muito que se fala sobre política, sobre organizações político-administrativas do Estado, sobre as questões técnicas e práticas das políticas públicas adotadas, todas as discussões, muitas vezes acaloradas, não são suficientes para impedir que questões sérias sejam tratadas com extrema paixão e que assuntos, que devem ser realmente discutidos, fiquem de lado para oposições de questões pessoais, em nada relevante para o cenário nacional. Houve tempo em que tais debates eram travados às vésperas das eleições, pelos próprios candidatos, o que se vê, entretanto, são debates por representantes de tais candidatos, que não apenas ultrapassam o limite das questões públicas relevantes, e vão além das questões pessoais dos candidatos, para alcançar ofensas pessoais entre os debatedores. Aqueles que se propõem a discutir política, aqueles que pretendem formar opiniões de milhares que os seguem devem perceber a responsabilidade que têm nas mãos. Devem estar atentos em estabelecer a correta diferenciação entre fatos e opiniões, em participar de debates, entrevistas, e produções jornalísticas de forma ética. O ponto é que ninguém convence outra pessoa. Portanto, qualquer escala emocional, de impropérios e discussões, não vai alcançar o objetivo pretendido, pode e deve ser evitada. Assuntos de relevância nacional, que influenciam a vida de milhões de pessoas não devem ser discutidos como a famosa disputa entre biscoito e bolacha. A política deve ser vista por questões técnicas e não por paixões. Ninguém quer um jogador de futebol no próprio time que saiba dar uma boa entrevista, mas não faça gol no dia do jogo. Ninguém quer um jogador no próprio time que seja simpático e que falhe nas defesas. Então, se no futebol é fácil perceber essa diferença, sendo o futebol algo que mexe com paixões, por que se torna tão difícil aplicar o mesmo princípio na política? Quando emoções tomam o lugar da razão, qualquer exposição sofrerá com a presença de informações inúteis, tom de voz elevado e até mesmo coisas piores que essas, que tão somente prejudicam o debate, a boa apresentação de ideias opostas. Quando a razão sai, dá lugar a atitudes impensadas, postura provocativa e atos que excedem à lei. O velho ditado aduz que não se deve discutir futebol, política e religião. Mas a verdade é que todos esses temas podem ser discutidos, no melhor sentido da palavra. Podem ser colocadas questões técnicas, causas e consequências. O que não se discute são as escolhas pessoais. O futebol pode ser debatido, as táticas e escalações usadas que podiam ter sido melhor pensadas, a contratação que não rendeu, qual time tem mais torcida, qual time merecia vencer o campeonato. A discussão se torna inútil quando se questiona a escolha do outro e quando existe a tentativa de tentar mudá-la. Uma atitude sábia é dizer a razão pela qual se torce por determinado time, defender a própria escolha sem atacar a escolha do outro, sem ataques pessoais, sem ataques a tradições, argumentação baseada em fatos. Nenhum argumento é mais convincente do que o argumento utilizado sem a pretensão de convencer. A religião pode ser debatida quanto aos princípios aplicados, quanto à mudança que opera na vida das pessoas, quanto à sua história e tradição, mas não cabe a ninguém convencer o outro de que determinada religião está ultrapassada ou que não se enquadra na realidade presente, a cada um é revelado o que lhe cabe, e mais uma vez, ninguém é capaz de convencer o outro, mas todos deveriam ser capazes de ouvir diferentes pensamentos sem tentativas de menosprezo ou de convencimento. E a política segue o mesmo ritmo, e, enquanto nos campos anteriores a paixão é peça fundamental, na política, a paixão deve ser evitada, pois, decisões políticas influenciam a vida de todos e não devem estar atreladas a uma paixão por partidos ou políticos, muito menos por revoltas contra determinadas pessoas. A análise política deve ser pautada pelos planos de governo, pelos princípios e valores de quem vota e de quem é eleito, pelas reais consequências das escolhas, e não por discursos inflamados. Política não pode ser pautada por paixões, deve ser pautada pela razão, pelo conhecimento dos fatos, pela liberdade de expressão, pela não tentativa de convencimento, pela boa diferenciação do que é fato e o que é opinião. Política é coisa séria, política define os rumos da nação, e quem se propõe a falar sobre ela, tem que ter mais razão e menos emoção.

Suellen Escariz - Advogada e Mestre em Direito pela Universidade de Coimbra, Instagram: @suellenescariz e Twitter: @EscarizSuellen


















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